
Esteve em Sertânia no último domingo, 13, o Padre Airton Freire, celebrando a missa de 30º ano de sacerdócio na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ali reuniu um público que lotou a igreja, todos rezando e participando do ato religioso. Chamou a atenção o número de pessoas assistindo a missa do padre que tem sido um exemplo de fé transformada em ação.
A prova de Padre Airton juntamente com sua equipe transformou fé em ação foi a intervenção na Comunidade da Rua do Lixo, localizada na periferia de Arcoverde, Interior de Pernambuco, a qual é constituída por catadores de lixo, quebradores de brita, biscateiros, migrantes, etc. Padre Ailton criou a Fundação Terra, que atende a 400 (quatrocentas) famílias, aproximadamente, 2.000 (duas mil) pessoas. Conta com os serviços de mais de 200 (duzentos) funcionários e possui uma despesa fixa em torno de R$ 79.000,00 (setenta e nove mil reais) por mês, o que está sempre mobilizando a luta e a criatividade, pois não recebe nenhuma contribuição oficial e/ou fixa.
Conheça um pouco da história de Padre Airton Freire e seu trabalho no texto de Manoel Affonso de Mello (Trabalho de Intervenção)
Padre Airton freire, nasceu de uma família pobre em 29 de dezembro de 1955, em São José do Egito-PE. Estudou Filosofia e Teologia no ITER (Instituto de Teologia do Recife) e Psicologia na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - PE. (FACHO). Foi ordenado sacerdote pela Diocese de Pesqueira - PE., em 13 de fevereiro de 1983, sua ordenação ocorreu aqui em Sertânia na quadra da Escola Olavo Bilac. Fez formação Analítica no Centro de Estudos Freudianos em Recife e Pós Graduação na Metodologia de Ensino criada por PAULO FREIRE, pela Universidade Estadual do Ceará. Atualmente assessora a formação religiosa nos Colégios das Damas. Teve seu primeiro contato com a comunidade da Rua do Lixo em 1983, através de uma visita realizada ao local, à convite de um grupo de jovens da Paróquia de Cajueiro, no Recife.
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Na época em que visitou a comunidade da Rua do Lixo em 1983, o Padre Airton encontrava-se em meio a uma crise da identidade sacerdotal e o que pôde ver lá o sensibilizou profundamente, levando-o a uma tomada de decisão - “Morar com e como os pobres”. Naquele momento, para ele, esse era o caminho para a resolução de alguns dilemas, como, por exemplo, a perturbação vivida permeada pela dúvida - “Ser padre, pra quê ?”
Essa decisão desencadeou uma série de conflitos e dificuldades. Uns físicos e biológicos como: a fome, a cólera, a seca. Outros emocionais, sociais e políticos como: os preconceitos, as proibições, as perseguições e as ameaças. Tornava-se difícil entender como seguir os princípios exigidos pela Igreja Católica, a exemplo do voto de pobreza - “ Como optar pelos pobres e manter-se distante deles ?”.
No entanto, por outro lado, o contato diário com as pessoas, o exercício da escuta, a troca de idéias a respeito das dificuldades que vivenciavam, facilitava o desenvolvimento do sentimento de grupo, de pertencimento, de capacidade, enquanto agente transformador.
Inicialmente, esse grupo auto denominou-se ASSOCIAÇÃO TERRA, posteriormente, FUNDAÇÃO TERRA e foi, gradativamente, construindo um projeto comum.
A mobilização da comunidade para reivindicar luz elétrica, água, saneamento básico, paulatinamente, ia apresentando resultados positivos. Desse modo, um grupo de jovens alemães ao visitar a Fundação, como amigos do Pe. Airton, acreditou na capacidade organizacional da comunidade e sentiu-se estimulado a buscar verbas para auxiliar o processo de mudança que iniciava-se.
Até então, já havia sido construída a creche, o salão comunitário, a capela, e dois sítios para produção agropecuária.
A construção da creche foi motivada pela necessidade de reduzir o índice de mortalidade infantil. As crianças, desde muito cedo, entravam em contato com o lixo e o ritmo de aquisição das infecções e verminoses era altíssimo. Assim, a higiene básica e a alimentação adequada possível oferecidas, aumentavam as probabilidades da sobrevida
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Os dois sítios destinavam-se, inicialmente, à recuperação de menores drogados através do aprendizado das técnicas de produção agropecuária para a profissionalização. Mas, esse objetivo inicial, estendia-se a outros, como a prevenção da subnutrição. Os legumes, as verduras, produzidos em um dos sítios, juntamente com a produção de aves, caprinos, suínos produzidos no outro, serviam como matéria-prima para a preparação da alimentação comunitária, onde a prioridade, além das crianças, eram as gestantes.
Pe. Aírton começou a acelerar sua produção literária escrevendo um livro após outro, nas áreas da psicologia clínica e social, da religião, entre outras.
Começou a aproveitar seu Dom musical gravando CDs com músicas em várias línguas como: francês, latim, hebraico, alemão. Tudo, criativamente, planejado.
Com esse esforço e enormes dificuldades conseguiu-se manter os projetos iniciados e desenvolver outros novos.
Percebe-se isso, claramente, no histórico do desenvolvimento das obras. A satisfação garantida pela construção da creche, logo cedia lugar a uma nova sensação de falta, ao se observar que as crianças, ao saírem da creche, retornavam à rua, ao lixo, fato que comprometia todo esforço inicial. Então, o que fazer para manter as crianças num ambiente digno e propício ao desenvolvimento? Inicia-se outro projeto: a escolinha, que atende ao Ensino Infantil e ao Ensino Fundamental I.

As relações familiares encontravam-se, seriamente, comprometidas. Havia problemáticas violentas entre gêneros; dispersão da energia masculina por alcoolismo; baixa auto-estima feminina; desorientação emocional da prole, entre outras dificuldades.
O curso de Corte e Costura surgiu para auxiliar as mães na recepção da constante chegada de novos membros à família, habilitando-as a confeccionar o enxoval para os próprios filhos e preservar as poucas roupas que possuíam.
Havia na comunidade um índice, razoavelmente, elevado de infecção ginecológica que derivava da falta de higiene, da falta de informação, do hábito constante de provocar abortos, por meios absurdamente precários.
Surge o centro Materno Infantil para oferecer assistência à saúde, dispondo dos serviços de ginecologia, clínica geral, pediatria e odontologia. Lá, também, as mães podem ser orientadas sobre a importância do aleitamento da relação mãe-filho e como se dá a repercussão dessa última no desenvolvimento da criança.
É válido ressaltar que, naquela periferia, a visão utilitarista econômica predominava com relação aos idosos, não diferenciando-se da nossa herança cultural, típica do ocidente, que experimentou o fato de ser colonizado. Ali, perder a capacidade produtiva estava, intrinsecamente, relacionada à perda de valor. No tocante aos atores sociais a lógica do mercado era o que prevalecia.
Para alterar essa concepção e resgatar o valor da pessoa em sua totalidade construiu-se o Abrigo de Idosos.
Nessa fase da vida eles passavam a representar um peso para a família, sendo privados das
A velocidade com que está se processando a evolução tecnológica propiciou à Fundação Terra adquirir, através de doações, máquinas de escrever e computadores. O que para alguns estava ultrapassado, lá era recebido como objetos de grande valor. Iniciavam-se os cursos de datilografia e informática para facilitar o ingresso dos jovens no mercado de trabalho.

A marcenaria e a padaria originaram-se das demandas internas que careciam de móveis para creche e escola, como também da necessidade de minimizar os custos com à alimentação. Porém, ambas, visam também a profissionalização dos adolescentes.
Com os resultados obtidos através dessa prática interventiva, a Fundação Terra preocupa-se, agora, em ampliar o campo de atuação das ações sociais. Criou-se a Comunidade Vida que tem por finalidade a orientação no discernimento vocacional de jovens voluntários, o que lá denominou-se de OS SERVUS. Esses estudam, recebem missões e meditam, diariamente, além de preocuparem-se com o desenvolvimento de produtos como camisas e velas, e a comercialização dos CDs, do mel de abelha e dos livros de autoria do Pe. Airton.
Os três princípios adotados pela Fundação certamente foram os catalisadores do sucesso dessa intervenção.
1.SIMPLICIDADE - transparência nas ações;
2.COLEGIALIDADE - decisões tomadas em grupo;
3. EFICIÊNCIA - qualidade em tudo que realiza.
Ao realizar esse trabalho sobre a Fundação Terra foi percebida a evidência do caráter VIVO dessa entidade.
Intervenções, dessa espécie, fortalecem a credibilidade em nossos papeis enquanto cidadãos reflexivos, transformadores, que buscam assegurar o bem estar dos atores inseridos num sistema sócio-simbólico, modelo de uma democracia social.
Tenta buscar nos pássaros, não a perfeição do vôo, mas a ânsia dos que lutam por muito mais que um mero lugar seguro para pousar.
Que tudo isso sirva de exemplo para os que se dizem "religiosos" e fervorosos servos de Deus, fica aqui a lição de que não basta somente se ajoelhar, rezar e ir as missas dos domingos, é preciso agir, transformar essa fé em ação e sem querer aparecer fazer o BEM ao seu irmão.
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