COTIDIANO

CHIQUINHO DE DONA NATÁLIA, O JIM CARREY SERTANIENSE

            Escrito por Waldir Almeida*

Chiquinho de D. Natália com o nosso amigo Valdir em Sampa

Em férias na belíssima São Paulo, tive a satisfação de passar algumas horas com o meu querido amigo e, por que não admitir, quase irmão Chico Boy. Francisco Jair Rosendo de Oliveira, ou Chiquinho de dona Natália e do saudoso Gerson Jacinto, irmão de Mina do som, de Quézia, de Itamar (in memoriam), da 'nega' Mira, como ele bem a chama, de Meudo e de Júnior. Se acaso eu pudesse chamar alguém, guardadas as devidas proporções, de clone de Jim Carrey em Sertânia, com certeza este título iria para meu dileto amigo Chiquinho. Vejamos abaixo:

Desde o tempo em que, com maestria, escondia a sandália de seu Arnóbio quando este tomava conta da portaria do GIAL (Amaro Lafayette), fazendo com que, 'mancando' num pé só, pedisse aos alunos que lhe devolvessem o calçado, imputando ao colega Roberto (Jacaré), a culpa pela travessura, Chico Boy já se mostrava uma figura carismática e capaz de arrancar gargalhadas daqueles que conviviam com ele. Até mesmo aprontando com alguém, sem nenhuma maldade no seu imenso coração, tornava-se uma pessoa agradável e sempre com um imenso prazer em fazer o bem, não interessa o que receber em troca.

Lembro-me de duas passagens que me fazem rir até quando estou sozinho: a primeira, a gente voltando de uma novena da Rua Velha, chegando ao posto de Queiroz, ele me convidou pra lanchar. Aceitei na hora e eu imaginando que ele tinha como pagar, fui todo contente ao bar de Vadó. Ele me disse: 'não é aí, não'. Descemos a calçada e nos dirigimos, por volta de quase 22h, aos pés de tamarindo que existiam na Praça da Bandeira e ele, morrendo de achar graça, subiu numa árvore, saboreava um fruto e jogava outro pra mim. Registre-se que estes eram verdes, mas tinham um sabor especial naquela calada da noite. Ainda aprontou mais uma, convencendo este tolo a adentrar ao antigo 'O Beco', argumentando ao segurança da porta que iríamos beber. Subindo a escada seguidos pela 'autoridade', esta indagou o que nós beberíamos? Chico Boy ainda pôs a mão na cintura antes de fazer o pedido: 'um copo d'água por favor'. Nem precisa dizer o quanto corremos e rimos após fugir da perseguição do leão de chácara. A segunda, numa de nossas apresentações teatrais, com o saudoso grupo Emídio Neto, em Monteiro/PB, ele ao ver uma colega dizer que estava com fome, fez a traquinice de levá-la à casa de uma senhora e pedir 'uma comidinha pra uma menina que estava morrendo de fome'. Esta sentada na calçada, começou a chorar copiosamente, enquanto a gente ria sem parar daquela aprontação. Estas gaiatices dele nunca fizeram com que alguém guardasse rancor ou rompesse o círculo de amizades entre a gente.

Trabalhamos juntos no Supermercado Pérola (de seu Duca), entregando feiras nas bicicletas cargueiras, onde disputávamos alguns 'rachas' pelas ladeiras da Vila da Cohab, Alto de Afogados, Avenida Agamenon Magalhães, em frente à Cocane e mais algumas de Sertânia, tendo, ainda, a companhia de um outro colega de nome Zé Lira para ficar em terceiro lugar na concorrência pós entrega das compras. Às vezes a gente combinava a hora, pra dar tempo até de uma foto pousando em nossos instrumentos de trabalho.

Chico Boy passou por alguns percalços em sua vida que fazem a gente refletir e buscar ser uma pessoa mais generosa, humilde, feliz, solidária e simpática, não interessando o sofrimento que venha ao nosso encontro. Descreveu passagens cruciais, não esquecendo de salientar nomes de pessoas que foram importantes no seu caminhar: Renildo irmão de professor Ivan, quando numa carona dada por 'Pamão', que transportava uma rocha enorme para Recife na carroceria de um caminhão amarelo e, entrando na cidade, para não passar por cima de um motorista imprudente conduzindo uma brasília, fez uma 'mágica' ao volante, o suficiente para a pedra deslizar, saindo entre os eixos e correndo em direção aos dois que dormiam numa lona junto à cabine, parando, milagrosamente, a uns dois centímetros de esmagá-los, destacando que a pessoa só morre no dia marcado, segundo sua crença; Esequias ao bem recebê-lo quando volta sempre à terrinha; Flavinho da farmácia, por ter amenizado sua dor, profetizando que esta somente passava com aplicação de dolantina, quando internado no hospital municipal, culminando, após uma crise medonha, na retirada de um dos rins, motivo que o impossibilita de retornar ao trabalho do qual tanto gosta; Zé Vitorino e Mundico por terem lhe estendido a mão quando chegou na selva de pedra que é SP e outros que minha memória não alcança neste instante. Discorreu, ainda, sobre pessoas que conviveram conosco, quando ainda existia um pé de algaroba na frente da casa de seu João do ouro, no qual era comum formar um grupo de garotos para, cada um na sua 'cadeira', trepado na árvore, jogar conversa fora, e que tentando encontrar estas (melhor nem mencionar nomes, pois tratam-se de pobres de espírito e que nem merecem ser lembradas), fizeram de conta que inexistia conhecimento, mesmo sendo conterrâneos e de passado comum. Até o perdão, um dos mais difíceis sentimentos de se praticar, é apregoado por ele com sua imensa bondade e sua postura de honestidade, trabalho, respeito, consideração, amizade, retidão de caráter e amor ao próximo.

Quem conhece um pouco SP tem uma ideia do que é o cruzamento das avenidas Têxteis e dos Metalúrgicos. Num belo dia, no seu labor diário (motorista de ônibus urbano), nosso herói, conhecido entre os pares como MacGyver (sempre dava, quando na ativa, um jeito nos ônibus na hora em que apresentavam defeito, valendo-se do curso de mecânica na Escola Técnica Federal de Recife), teve que fazer um verdadeiro milagre, onde foi ovacionado e aplaudido pelos passageiros, transeuntes e motoristas que descreveram a manobra, após faltar freio no veículo, como algo cinematográfico, sendo notícia até no Jornal Nacional na época. Outra coisa que retrata o instinto Jim Carrey de Chico Boy, cabendo uma narração de quem o acompanhou em alguns 'balões' do Terminal São Mateus até o Parque Dom Pedro, no caso eu, noutra oportunidade em que exercitei um dos meus hobbies prediletos (encontrar pessoas de Sertânia nas minhas andanças), uma cidadã que tinha carteirinha (passe livre) e que era passageira frequente e preferia o transporte guiado por Chico, mesmo que tivesse de esperar horas a fio, não sendo muito chegada a um banho, causava um certo transtorno ao nosso personagem e aí ele teve a brilhante ideia de dividir com o cobrador e demais passageiros o 'privilégio' de sentir a 'inhaca' daquela senhora, convencendo-a de que seria mais confortável pra ela embarcar pela porta traseira e sentando ao lado do cobrador. Ninguém melhor que Chico para se perder na avenida Paulista, fazendo uma conversão indevida, conduzindo um ônibus com quase cem passageiros e ter a coragem, o discernimento, a sagacidade, a esperteza e a humildade de pedir aos ocupantes que lhe ajudassem a retornar à rota normal, sem causar maiores embaraços e não dando motivos para uma eventual representação junto à empresa na qual laborava, pois era muito querido e atencioso no seu mister.

Só quem conhece a grandeza deste ilustre cidadão, passando por alguns estágios difíceis na vida, dos quais se extrai o suficiente para recomeçar sempre, sabe do que estou falando agora. Dos incontáveis assaltos sofridos no trabalho e fora dele, das aulas que dava aos seus aprendizes, revezando a função de motorista com a de cobrador, para qualificar pessoas que necessitavam de uma oportunidade e não tinham a quem recorrer, das angústias, sofrimentos e dor pelas quais passou, tem-se muito exemplo a ser seguido e, sobretudo, muita história a se escrever daquele que, genuinamente, seria, na minha modéstia opinião, o JIM CARREY sertaniense.

O Bom humor do sertaniense Chiquinho é retratado pelo também sertaniense Valdir de D. Dora. "Chico Boy. Francisco Jair Rosendo de Oliveira, ou Chiquinho de dona Natália e do saudoso Gerson Jacinto, irmão de Mina do som, de Quézia, de Itamar (in memoriam), da 'nega' Mira, como ele bem a chama, de Meudo e de Júnior. Se acaso eu pudesse chamar alguém, guardadas as devidas proporções, de clone de Jim Carrey em Sertânia"

A você, meu caro amigo, externo a mais sincera homenagem e agradecimento pela excelente pessoa que é, por ter me ensinado tantas coisas importantes ao longo de mais de 30 anos de amizade, pelo saboroso feijão que preparou, oferecendo um senhor banquete à Cida e a mim na primeira visita que lhe fizemos, pelas risadas que deu ao me ver cair, derrapando com aquele 'tênis traíra', após uma chuvarada em São Bernardo dos Campos, na segunda visita, por querer 'rachar' a compra do guarda-chuva naquele mesmo dia, como fazíamos nos tempos de casa do estudante, quando você ganhava os prêmios (melhor forrozeiro), recebendo com bom humor o título de TED (terror das empregadas domésticas), que faziam fila pra ser sua parceira de dança, não esquecendo nunca de dividir o brinde com seus pares, por me oferecer o braço para andarmos juntos como pai e filho, com a preocupação e o cuidado de que seu eu caísse novamente, desta vez só o levando junto, pelos bons momentos que passamos na sua agradável companhia e por estar sempre disponível a um afetuoso e solidário abraço.

* José Valdir de Almeida é sertaniense reside em Porto Velho-RO é funcionário público federal. Participou junto com o redator do site Tribuna do Moxotó e tantos outros sertanienses por aí a fora do Grupo Teatral Emídio Neto(Eita saudade!!!!)

 

 

COMENTÁRIOS

Valdir e suas descobertas

Esse é uma das poucas pessoas dignas que eu tenho o prazer de conhecer, um homem serio e honesto que tem um coração que não sei como cabe dentro do seu peito.amigo de tantos caminhos e tantas jornadas, cabeça de homem mas um coração de menino. fica com DEUS, meu irmão.

Rogerio magalhães: rogerhuguinho@hotmail.com

Chiquinho de Dona Natália

Ótimo texto. O Valdir tem uma forma bastante especial de descrever situações e contar fatos ocorridos em Sertânia. Me emocionei bastante com o que ele escreveu sobre Chiquinho.
Aproveirto o espaço para dizer que o Valdir, apesar de não conhecê-lo pessoalmente, é um homem de muito bom coração. Tem uma sensibilidade rara.
Continue assim, Valdir, pois esse seu HOBBIE faz muito sertaniense feliz por esse BRASIL a fora.

Allana Oliveira:allana.oliveira@hotmail.com

UM POUCO DE SERTÂNIA NA GRANDE BELO HORIZONTE

"Leia a narrativa de uma história do nosso amigo-irmão ex-colega de teatro e sertaniense Waldir Almeida na capital de Minas Gerais."

O sertaniense Waldir conta de sua alegria ao ver um estabelecimento comercial em plena capital de Minas Gerais chamar-se "Bar Sertânia", ele foi atrás para ver quem era o dono. Leia toda história contada pelo próprio Waldir

Indo de Lagoa Santa, nas adjacências de Confins, para o centro de Belo Horizonte/MG, ao olhar pela janela do ônibus deparei-me com uma fachada que me fez delirar. Anotei os dados e alguns dias depois bati à porta do estabelecimento, conforme fotos anexas. Encontrei um funcionário e indaguei a este quem seria o proprietário do Bar e Restaurante SERTÂNIA. Isso mesmo: um pouco da terrinha no centro de BH. O homem disse que o bar era de ROGÉRIO, mas ele não estava e nem viria naquele domingo. Mas, logo abaixo, eu encontraria um irmão dele, de nome ROBERVAL RODRIGUES NUNES. Fui ao estabelecimento KIBERAMA e encontrei mais um conterrâneo, melhor dizendo, dois conterrâneos. A esposa dele, filha de seu SIMPLÍCIO, morador da Pedra Grande, nas imediações do Colégio das Freiras, foi muito atenciosa comigo e por alguns minutos conversamos sobre pessoas e fatos de Sertânia, as escolas, pessoas, famílias e outros de interesse comum. Foi mágico e, sendo um dos meus hobies (procurar pessoas de Sertânia), resolvi compartilhar com vcs de minha lista de contatos.
 
Quem for em BH, procure na Rua da Bahia entre os números 451 a 501, lado esquerdo do fluxo, pois trata-se de uma via de mão única. Bem próximo da Praça da Estação; Avenida dos Andradas; Praça Rui Barbosa; Rua dos Carijós, dos Tupis e um pouco abaixo do parque da cidade, tendo como ponto de referência o hotel Bahia.
 
Abraços, bom final de semana e fiquem com Deus.

Waldir

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COMENTÁRIOS

Um bar chamado SERTÂNIA na capital de mineira / Belo Horizonte 

Gostei da matéria,pois sou mineiro da gema casado com uma pernambucana que é irmã do proprietário do aludido bar SERTÂNIA senhor Rogério filho de Simplício e Francisca, pessoa muito especial, dígno de um verdadeiro brasileiro. O valor declarado na materia só faz valorizar nossas raizes. Parabéns.

Marcos Resende: resendepr@yahoo.com.br

 

CULTURA - UM POUCO DE SERTÂNIA NA GRANDE BELO HORIZONTE

"Examino minunciosamente de onde vim. Canto suas canções, conto suas histórias, preservo sua linguagem e os seus valores porque eles fizeram de mim o que eu sou. E por que se eu não o fizer, quem o fará\"?

José Waldir, semelhante a todo nortista que se respeite (na fala de Luiz Gonzaga, ou somos nortistas ou sulistas), não perde a mais remota e tímida oportunidade para encurtar as distâncias entre sua terra natal - nossa querida Sertânia - e o mundo lá fora...
Parabenizamos e compartilhamos com Waldir desse amor tão natural, espontâneo e nunca esquecido...
Gente do interior, dos sertões, sabe o que é autenticidade no amar, no resgate e preservação de sua identidade.
Por Floresta, de certo, faríamos de igual tamanho!
Um grande abraço ao povo de Sertânia, ao nosso querido Waldir, aos leitores e redatores do \"Tribuna do Moxotó\"

Carla Ferraz - Floresta - PE Carla Rogéria Rosa Ferraz: carlaboiadeira36@hotmail.com

 

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